10.2.14

Meio sorriso

Estou de volta à estaca zero. Te olho enquanto você olha pela janela e planeja seu futuro. Sem mim. Eu fico na porta e não faço barulho porque sua silhueta contra a luz lá de fora é quase poética. Eu olho ao redor e é o mesmo cômodo em que um dia você me beijou e disse que eu era sua. Eu ainda não era. Hoje não há uma parte de mim que não esteja nas suas mãos. Não sou nem minha, quem dirá de alguém além de você. Naquela época, eu não sabia que 'pra sempre' era uma expressão de contos de fadas. E que em três anos eu acharia a expressão 'contos de fadas' idiota. Eu sonhava com eles, você sabe. Com cavalos brancos como os que eu cresci adorando e castelos no meio do mato, como o mato em que eu andava quando era criança.

Quando você resolver fechar a cortina e dar meia volta, eu já terei fugido. Eu não quero te encarar porque não é real. Qualquer palavra bonita que você disser me fará duvidar dos seus sentimentos e eu odeio incertezas. A gente pode deixar assim, não pode? Você com os seus planos e eu esperando fazer parte deles um dia, mas deixando que o destino se encarregue de colocar um no caminho do outro. Até lá, minhas cicatrizes terão sumido, meu cabelo estará comprido de novo e talvez eu esteja um pouco mais mulher. Do jeito que você pediu pra eu ser quando você também era só um moleque.

A gente erra, eu sei. Eu não fui perfeita. Eu sempre fiz exatamente isso que estou fazendo agora, sabe. Me fazendo de vítima. Não queria, mas uma parte de mim está desesperada por atenção e coisas boas não te atraem. Você gosta de ver dor e de como me contorço a cada palavra sua que me atinge. Como se segurar a respiração cada vez que te vejo pra não soltar um suspiro alto não doesse também. Passo mal porque me falta ar. Desenvolvi um bom auto controle.

Eu já nem sei mais o que estou falando, eu só estou enrolando porque as lágrimas não param e eu quero que meus dedos digitem como se competissem com cada uma delas. Já não sei qual é mais rápido e qual pesa mais. Palavras sempre pesam, mas lágrimas são pequenas partes de mim que eu nunca vou recuperar, tudo por sua causa. Mesmo quando engulo o que falta botar pra fora, não aguento muito tempo. É sempre isso e é sempre por você e meu corpo anda meio fraco. Meu corpo anda sentindo falta do calor do seu e alguma coisa em mim não me deixa seguir em frente enquanto não ouvir você dizendo que está tudo bem, mas você nunca fala coisas assim. E você já teve a audácia de dizer que era amor e que era pra sempre. Você mente. Quem diria.

Eu não. Eu esbarrei em você e me apaixonei, então fiquei cega e surda, porque pelo que falam, você me deu todos os sinais de que não era o meu príncipe e eu não percebi. Eu via seu sorriso e pulava nos seus braços, sem perceber que não era pra mim que você tinha sorrido. Você dizia palavras doces e eu derretia sem perceber que não era comigo que você estava falando. E pra falar a verdade, não era pra ninguém além de você. Você não ama ninguém além de si mesmo, essa é a verdade por trás de toda a nossa história.

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