19.12.13

Crônica 16

Eu costumava frequentar o Bar do Fran semanalmente. Anos atrás. Muita coisa mudou desde então. Eu, principalmente. Mudei de casa, meu número de celular, meu emprego e minhas roupas. Algumas coisas, no entanto, permaneceram iguais. Minha disposição pra caminhar até a casa do meu melhor amigo foi uma delas. Casa, esta, que fica paralela ao Bar. Fotografei em minha mente muitos dos momentos importantes da minha vida. As sextas no Fran eram importantes. Foi onde comprei minha primeira cerveja, onde sentei com um amigo pra chorar as mágoas, onde encontrei meu amor. Tenho cada noite na memória e parece que revivi todas elas só ao passar em frente.

Revivi ainda mais quando ouvi uma voz familiar gritando meu nome.

- Psiu! - eu nunca olho psius. - Manu!

Olhei para trás e Fran estava sentado no velho banquinho encostado na porta. Corri pra um abraço como se todo o meu passado estivesse ali e eu pudesse tê-lo em mãos por uns segundos mais uma vez.

- Sumiu!

- Vida corrida, não tenho tempo pra mais nada.

- Que cê anda fazendo?

E a conversa sobre meus projetos durou uns minutos, porque ele sempre se interessou no que eu fazia. Falei sobre o que tenho escrito, as festas que tenho organizado, os eventos que tenho coberto.

- Tá com o cara lá ainda?

Fran só me viu com um cara na vida. E, sim, eu estava.

- Acho que é espiritual a coisa. É meio que pra sempre. - falei rindo, mas convicta por dentro.

- Não adianta fugir, não falei? Cê pode ir pra outra cidade, procurar outro emprego e mudar número de telefone. O que não termina, hora ou outra, reaparece.

- É verdade.

Ah, o cara em questão era um frequentador assíduo do Fran. Um babaca que bebeu demais numa sexta à noite e me beijou sem permissão. E acabou comprando chocolates, me chamando pra sair e fazendo algum tipo de bruxaria pra que depois de 3 anos ainda estivéssemos juntos.

Durante os 2 primeiros, Fran acompanhou nossa novela, me aconselhou, provavelmente o aconselhou também. Sabia quando eu já tinha bebido demais, quando a noite ia só piorar dali pra frente ou quando eu sairia de lá feliz e voltaria no dia seguinte pra contar minhas histórias. Sabia me dizer quando era a hora de me afastar e dar um tempo e quando eu deveria ir conversar e me acertar. E uma hora precisei dar um tempo maior. Com o foco em outras coisas, o tempo que tirei me afastou dessa rotina também.

- Mas que que cês vão fazer agora? Morar juntos?

- Deus me livre! - até eu me assustei com o tom da minha voz e a facilidade com a qual as palavras saíram.

- Vai ficar nessa mesmo?

- Não sei. Tô com tanta coisa na cabeça.

Estou mesmo, mas não justifica a resposta que eu dei. À noite, antes de dormir, sempre dá pra pensar no futuro por uns 5 minutos. É que dói um pouco pensar no futuro e não conseguir imaginá-lo. Não me imagino morando com o cara que deu um soco no volante na primeira vez em que eu tentei dizer que não dava mais. E nós já falamos sobre isso. Sentamos num parque, olhamos uns prédios e mobiliamos o apartamento com a nossa cara. "Você pode ter um aquário com peixes, gato não." Negociamos os animais de estimação e quem chamaríamos para visitar. Concordamos que nos mataríamos em dois dias.

- Cê tem que dar um jeito nisso. Assim fica muito cômodo, mas enjoa.

- Vou dar.

Olhei no celular e os minutos que conversei com Fran atrasaram meu jantar com o meu melhor amigo. Me despedi na pressa e prometi voltar. Talvez volte mesmo.

No curto caminho, pensei em tudo. Desde a primeira sexta feira até esta. Eu tinha que dar um jeito. Já estava enjoada. Até meu estômago revirava com o pensamento de nada mudar. Suspirei como quem diz "está bem, vamos lá!" e aceitei de uma vez por todas que era hora de seguir em frente.

Muitas vezes, seguir em frente começa com adeus.

E tudo fica muito mais fácil quando você sabe de quem deve se despedir.

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