7.10.13

Desenganos

Ontem, quando você foi embora, sentei à mesa e peguei um rascunho, desses que a gente deixa do lado da impressora, e comecei a escrever uma carta de despedida. Já fazia tempo que não escrevia no papel, minha caligrafia está péssima, mas é só um rascunho; não é como se eu ao menos fosse passá-lo a limpo ou entregá-lo.
Não sei de onde surgiu essa minha obsessão por cartas ultimamente. Sinto que são os dias chuvosos. Ou talvez eu esteja pressentindo que algo ruim acontecerá comigo em breve. Acho que ando pessimista. Os acontecimentos recentes não ajudam. Mas, enfim, eu te escrevi uma carta. Já rasguei, desisti da ideia de parecer estúpida escrevendo sobre coisas que só eu enxerguei.

O problema é que agora eu sentei de frente para o notebook e as palavras voltaram, ainda mais sentimentos e coisas que tinha esquecido de mencionar ontem. Me senti estúpida por jogar o pedaço de papel fora, porque um de nós precisa dar o primeiro passo. Não para que fiquemos juntos de novo, mas para que sigamos em frente. Eu quero me libertar, mas fico presa a você sempre que chega mais perto. Quando você está longe, eu estou bem. Eu sinto sua falta, mas eu sinto menos a cada dia. Então eu te vejo e esqueço que não vale a pena.

Eu sempre me vejo num grande dilema, porque sinto que te devo muito, por tudo o que fez de bom, por me salvar de mim mesma numa época em que eu não me sentia sã e salva em minha própria pele. Mas o que você quer em troca de tudo o que me deu, eu não posso mais te dar. Eu não posso ficar sentada, te esperando, até você resolver voltar, depois de dias sem dar notícias. Não é justo, é mais do que eu te devo. Senti que anos se passaram e eu não conquistei nada, nem você por inteiro. Não me peça para tentar uma última vez. Eu te dei dezenas de segundas chances porque você parecia merecer. Até que eu descobri que você é só um bom ator. Você finge bem, seu timing é quase perfeito, é como se você estudasse todas as situações antes delas acontecerem. Não sei como consegue, quanto tempo levou para aprender todas essas técnicas que eu não consigo acompanhar. É verdade, você é um ótimo ator, sim. Mas não se vanglorie.

A vida não é um filme.

1 comentários:

Mirela F. de Souza disse...

Incrível! Ocorrem- me lembranças no decorrer da leitura!

chocolatenacereja.blogspot.com