7.10.12

Paisagem

Estou sentada em meu quarto, o mesmo há nove anos, e o domingo já começou chuvoso aqui dentro. Se bobear, despertei com o barulho e não consegui voltar a dormir com todos esses trovões. Não estou com medo, mas que pena não ter uma única alma em casa para bater na porta e me perguntar se quero algo. Mas também, acho que eu diria 'só quero ficar sozinha' e daria na mesma. Ou daria? Saber que tem alguém lá embaixo, só esperando até eu gritar por ajuda, deve ser reconfortante. Pego o telefone para ligar para aquele amigo mais próximo e me pergunto "quem?". Agenda cheia, mas não faria diferença se estivesse vazia. Começo a me perguntar onde errei. Não acertei uma única vez no jogo da vida. Deixei de rolar os dados diversas vezes e, nas vezes em que arrisquei, dei um só passo. Sempre tive muito medo do que viria, mas nunca tive tanto medo quanto agora. Medo de não vir nada. De mesmo que eu andar sem dar passos para trás, mesmo que eu bater em portas e procurar pessoas, não chegue a lugar algum, portas não se abram, pessoas me ignorem. Queria ir embora e recomeçar. Mudar de cidade, de cabelo e até de nome. Me chamaria Manoela, poderia ter um chalézinho perto de Nhandeara ou uma casinha em Ilha Comprida. Poderia ser uma moça loira, cheia de segredos, que toma café preto olhando o movimento da rua pela janela e acena para os conhecidos que vão ao bar onde toco minhas músicas por bebidas e alguns trocados. Alguém com um nome de bartender americano, como John, poderia ser meu melhor amigo. Iria ao mercado na quinta-feira à tarde comprar um engradado de cerveja e esbarraria num moço de olhos de mar que, mal saberia eu, seria meu futuro marido. A vida não seria tão ruim. Quem sabe numa próxima... Por enquanto, ainda não tenho nada, não sou nem dona de mim. Não conheço quase ninguém nessa cidade enorme, minha janela dá pra um quintal sem flores e toco minhas músicas para paredes brancas. Fecho os olhos quando o faço e canto meus desejos absurdos. Abro os olhos e me obrigo a fechá-los novamente para não encarar a vida aqui, nesse quarto, o mesmo há nove anos. É sempre chuvoso aqui dentro.

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